Fomos até a cozinha e a encontramos vazia. O Justin abriu a geladeira e ficou procurando por algo.
–Que tal nós dividirmos um pote de sorvete? – ele disse feliz enquanto tirava o pote lá de dentro.
–Nem pensar! – disse indo até ele e devolvendo o pote na geladeira – Sua mãe me disse que era para você tomar um café da manhã saudável e não era para ficar comendo porcarias.
–Não é porcaria… lê a embalagem, está escrito sorvete. – ele disse sorrindo e tentando me convencer.
–Não Justin. – disse o empurrando de lado e procurando por outra coisa – Você pode tomar um pouco de leite, comer cereal…
–Muffins. – ele completou.
–Isso não é saudável.
–Então o que é saudável para você? – ele perguntou enquanto se apoiava na bancada.
–Fruta. – disse fechando a geladeira e olhando para as frutas que havia ao seu lado.
–Fruta?! – ele perguntou fazendo cara feia – Prefiro o cereal.
Ele foi até a dispensa e pegou uma caixa de cereal.
–Ok… você pode até comer o cereal, mas vai também comer a fruta. – disse pegando uma maçã, uma pêra e um cacho de uva.
–Só o cereal já está bom.
–Sua mãe tinha dito que é para ser uma refeição completa. – disse indo até a pia e lavando as frutas – Onde ficam os talheres e pratos?
–Eu pego. – ele foi até o outro lado da cozinha e pegou as coisas.
Enquanto eu picava a maçã e a pêra o Justin tentava me distrair e apertava a minha barriga.
–Porque você não vai comendo o cereal? – sugeri a fim de fazê-lo parar de me atrapalhar.
–Porque você também vai tomar café da manhã comigo. – ele disse dando outro apertão.
–Não precisa ficar me esperando. – disse lhe dando um cutucão com o cotovelo.
–Pois eu vou te esperar para comermos juntos. – ele disse me abraçando por trás e retirando uma das uvas que estava presa ao cacho – Sabe o que isso me lembra? Floripa, mais propriamente o chalé em que ficamos.
–Que saudade de lá. – disse suspirando.
–Eu também. Se pudesse reviver um momento… eu reviveria aquela noite. – ele disse depois engoliu a uva e beijou a minha bochecha até encontrar a minha boca.
–O que vocês estão fazendo? – disse alguém.
Na hora eu levei um susto que acabei cortando o meu dedo com a faca.
–Ai. – me queixei e olhei para o meu dedo – Droga.
–Se machucou? – o Justin perguntou preocupado.
–O que vocês estão fazendo aí? – uma das funcionárias perguntou novamente.
–Nós viemos procurar algo para comer. – o Justin explicou enquanto eu ia até a pia para lavar o meu dedo.
–Era só pedirem. – ela disse olhando o que estávamos preparando – Não quero que fiquem perambulando e bagunçando na cozinha.
–Não estamos fazendo nada demais, Adelaide. – o Justin disse a ela e veio ver o meu dedo – Machucou muito?
–Não… foi só um pequeno corte. – disse apertando o ferimento.
–Acho melhor fazer um curativo.
–Isso. – a mulher concordou com ele – Depois vocês vão para a sala de jantar que já vou mandar servir o café da manhã.
O Justin me acompanhou até o banheiro e eu logo fiz um curativo.
–A Adelaide é assim mesmo. – ele me explicou rindo fraco e verificando o meu curativo – Ela trabalha faz muitos anos aqui como governanta da casa.
–Deu para ver que ela tem ciúmes da cozinha. – disse rindo junto com ele.
–E ela tem mesmo, sempre quando apareço por lá ela me expulsa. Quando era pequeno ela geralmente me pegava o flagra quando eu tentava roubar algum doce durante o intervalo das refeições. – ele disse me levando até a sala de jantar e puxando uma cadeira para eu me sentar.
–Você era mesmo um menino muito levado. – disse risonha enquanto me sentava.
–Minha avó diz que se eu não fizesse algum esporte certamente me meteria em mais confusões e daria mais trabalho. – ele disse enquanto se sentava a meu lado, olhou para a mesa e pegou um dos donuts – Deram uma boa melhorada no nosso café da manhã.
–Hey… - disse arrancando o doce de sua mão – Não é para comer isso.
–Como não se está em cima da mesa? – ele disse e votou a pegar o donuts.
–Não é para você. – Adelaide disse, também tirou o doce dele e apontou para mim – É para a visita, você vai comer algo mais saudável.
–Qual é Adelaide! – o Justin disse cruzando os braços.
–Você é o capitão do time de basquete da sua escola e também a sua mãe me contou que os jogos finais estão próximos, então você precisa ir se preparando. – ela disse e serviu o copo dele com um suco vermelho e me olhou – Desculpa querida, mas quem é você?
–Me chamo Julieta. - me apresentei e sorri - Julieta Valadares Monteiro.
–Prazer querida. Eu sou a Adelaide, quem controla essa casa quando está de pernas para o ar. – ele disse simpaticamente.
–A Jú é a minha namorada, Adelaide. – disse o Justin.
–Namorada?! – ela disse surpresa – Nossa não posso nem tirar alguns meses de férias e tudo muda dentro desse lar. Ainda bem que você resolveu tomar um rumo.
–É. – ele concordou e deu um gole no suco – Eu mudei bastante de uns tempos para cá.
Nós tomamos o café jutos enquanto a Adelaide nos fazia companhia e contava umas curiosidade sobre o Justin durante todos os anos que ela trabalhou aqui. Assim que terminamos nós resolvemos andar um pouco pela vizinhança. Como eu estava de bicicleta o Justin também foi pegar a dele.
–Pronto, já podemos ir. – ele disse vindo até mim já devidamente vestido e trazendo a bicicleta.
–Então vamos. – disse dando impulso e começando a pedalar.
–Espera! – o Justin gritou para mim e logo apareceu ao meu lado.
–O que é isso Jus? – perguntei assim que vi que ele estava segurando algo na sua mão direita.
–Roubei um donuts. – ele disse risonho e sem a menor vergonha de contar a verdade.
–Justin! – chamei a atenção dele enquanto ria – Só você mesmo.
–Não conta para ninguém. – ele disse dando uma mordida.
–Esta bem, vou te acobertar só dessa vez. – disse rindo da cara lambuzada dele – Você é mesmo pior do que uma criança.
Ele sorriu e parou de pedalar.
–Algum problema? – perguntei parando também.
O Justin se curvou e me beijou com o intuito de me lambuzar também.
–Para! – disse fugindo dele e rindo junto – Jus, olha só o meu rosto!
–Pronto... agora somos duas crianças. – ele disse risonho.
As pessoas que andavam na rua começaram a olhar para nós dois.
–Cada dia que passa as pessoas dessa cidade pensam que sou uma louca. – disse olhando para as caras assustadas de um grupo de crianças que passavam enquanto limpava meu rosto – Sendo que a culpa é a convivência.
–Isso foi uma indireta? – perguntou ele enquanto também limpava seu rosto.
–Não. – disse enquanto voltava a pedalar e ria – Foi uma direta mesmo.
Ele pedalava depressa para me acompanhar, mas eu tentava fugir dele. Entrava em pracinhas, ruas e em tudo o que é canto para despistá-lo. Olhei para trás para ver se ele estava por perto e não o encontrei, quando volto a olhar para frente vejo que iria atropelar um garoto.
–CUIDADO! – gritei com o intuito de alertá-lo.
Fechei meus olhos e tentei apertar o freio, acabei parando rudemente.
–Você é louca? – o garoto gritou para mim e depois riu – Tinha que ser você não é Julieta.
Abri os olhos e me deparei com o Apolo.
–Foi você quem ficou plantado no meio da ciclovia. – disse na defensiva.
–Eu vim buscar a bola. – ele disse apontando para a bola de basquete na mão dele – Então... resolveu voltar para assistir a gente jogar?
–Claro que não. – disse como se fosse óbvio.
–Nunca mais faz isso! – o Justin disse para mim enquanto vinha pedalando – Levei a maior bronca de uma velhinha por ter passado por cima das flores do jardim dela. – ele disse rindo e parou quando olhou para frente. – Apolo?!
–Olá JB. – ele disse com um sorriso forçado no rosto – Sua namoradinha veio me fazer companhia.
–Até parece. – disse revirando os olhos.
–Você sabia que eu estava aqui. – ele disse debochando.
–Isso não indica que eu vim te procurar. – disse lhe fuzilando com os olhos.
–Vamos embora de uma vez. – o Justin disse pegando a minha mão e fazendo pedalarmos juntos.
–Não quer jogar JB? – Apolo ofereceu – É só uma partidinha.
–Não. – o Justin respondeu sem ao menos olhar para trás.
–Que tal um mano a mano, só nós dois? – Apolo insistiu – A gente pode apostar algo se você quiser, é só escolher.
–Qualquer coisa? – o Justin perguntou enquanto parava a bicicleta, me fazendo para junto.
–Qualquer coisa. – Apolo concordou.
–Se eu ganhar você nos deixa em paz. – Justin disse descendo da bicicleta, largando a minha mão e indo até a quadra onde o Apolo estava.
–Fechado. – Apolo disse jogando a bola para o Justin – Mas caso eu ganhar eu fico com a Julieta.
–O que? – Justin disse alterado – Nem pensar.
–Tem que ser justo JB, você teve o direito de escolher o que quisesse.
–A Julieta não está inclusa nisso. Deixa-a de fora, a confronto é apenas nosso.
–Por quê? – Apolo disse me olhando – Você disse que queria que eu os deixasse em paz, ou seja, ela também está inclusa nisso.
–Mas ela não é uma coisa para se apostar. – Justin respondeu friamente – Escolhe outra coisa.
–Jus esquece isso e vamos embora. – disse largando as nossas bicicletas e colocando a minhas mãos no ombro dele – Vamos amor.
–Não vai amarelar agora né? – Apolo interveio.
–Justin... olha para mim – disse virando seu rosto e encarando seus olhos – Não entra na dele, é óbvio que vai ser um jogo sujo e ele está apenas tentando te tirar do sério. Vamos continuar aproveitando o dia juntos como a gente já estava fazendo.
Ele assentiu, largou a bola no meio da quadra e envolveu a minha cintura com o braço esquerdo para irmos embora.
–Então é assim? A Julieta é o homem da relação? – Apolo debochou.
–Eu já cansei da sua arrogância. – Justin disse com raiva, largou a minha cintura e voltou até a quadra com o punho fechado.
–NÃO JUS!! NÃO FAZ ISSO! – gritei enquanto corria até ele e me colocava entre os dois – Não piore as coisas para o seu lado.
–Seja um bom garoto e escuta a sua namoradinha. – Apolo se meteu – Pelo menos ela é mais sensata do que você e pensa antes de agir. Imagina o que poderia acontecer se você se envolvesse em uma briga de rua.
–Fica quieto Apolo. – disse irritada e acariciei a nuca do Justin, ele estava com os olhos transbordando raiva – Vamos embora amor.
–É... vamos embora. – o Justin disse mais calmo e me evolveu em seus braços até chegarmos onde tínhamos deixado as nossas bicicletas.
Seguimos andando abraçados de lado enquanto empurrávamos nossas bicicletas.
–Eu sempre fico morrendo de medo quando você se envolve em alguma briga. – disse e apoiei minha cabeça em seu peito – Não quero que te machuquem.
–A única que poderia fazer isso comigo seria você caso me deixasse. – ele disse apoiando seu queixo sobre a minha cabeça.
–Então você vai ter que me aturar à vida inteira, pois eu não vou mais querer te largar. – disse rindo fraco e abraçando mais forte a sua cintura com o meu braço direito.
–Era isso o que eu queria escutar. – ele disse sorridente.
–O que você está a fim de fazer? – perguntei a ele – Podemos ficar o dia inteiro juntos, porque acho que vou dormir na casa da Marie hoje.
–Que tal pegarmos uma carona? – ele disse arqueando as sobrancelhas.
–Como assim? Para quê pegaríamos uma carona? E com quem? – perguntei confusa.
–Com um bonde.
–Bonde?
–Vem comigo. – ele disse sorridente.
Prendemos nossas bicicletas no estacionamento de uma loja e caminhamos até uma passagem de trilhos.
–Nunca andei de bonde. – disse enquanto tentava me equilibrar sobre os trilhos até o bonde chegar.
–Isso não tem no Brasil? – ele me perguntou enquanto acompanhava meus passos do meu lado para me ajudar caso eu desequilibrasse ou caísse.
–Até tem, mas nós usamos mais o ônibus ou o metrô. Acho que bondes existem apenas em algumas cidades interioranas.
–Stratford é uma cidade pequena. – ele disse e segurou na minha mão quando eu quase desequilibrei – Cuidado Jú.
–Isso é divertido. – disse a ele – É emocionante.
–Isso é emocionante para você? – ele perguntou e riu em seguida – É assim que você busca a adrenalina?
–Também. – respondi e olhei para ele – Aaa qual é... quando se é desastrada tentar se equilibrar em cima de trilhos é emocionante sim.
–Você não conhece nada da vida mesmo né. – ele disse rindo de mim – Você nunca faz nada de errado.
–Não sei... eu sempre fui assim. – disse pensativa – Acho que é o meu jeito mesmo. Eu nunca tive vontade ou necessidade de aprontar para me divertir. Eu sei que você acha que eu não sou uma adolescente normal – disse analisando sua expressão – Mas não sei explicar... só sei que sou assim.
–É diferente das pessoas com quem eu convivo, mas não me importo com isso. Eu até que gosto do seu jeito. – ele disse rindo
–“Até que gosta”. – repeti e ri junto com ele.
Escuto o barulho de um apito e acabo dando um grito de susto e quase caindo.
–JÚ! – o Justin gritou e me puxou, fazendo-me sair de cima do trilho e ficar bem próxima dele.
O bonde estava passando ao nosso lado com uma certa velocidade e apitando sem parar. Não consegui me conter e comecei a rir.
–Não tem graça. – ele disse assustado, mas acabou rindo junto comigo – Então é assim que isso se torna emocionante? Você espera o bonde chegar e quase te atropelar?
–Não... – disse ainda rindo – Isso não estava nos meus planos.
–Droga. – ele disse olhando para o bonde e me puxando – Vem Jú... corre.
–Por quê? – perguntei confusa enquanto corria.
–O bonde já está indo. – ele disse me puxando mais ainda.
Assim que conseguimos chegar perto, ele pulou em cima de uma placa feita de metal da parte de trás do bonde fazendo soltar as nossas mãos.
–PULA JÚ! – ele pediu enquanto estendia o seu braço direito.
–VOCÊ ESTÁ LOUCO? – perguntei assustada enquanto corria ao lado dele – É MUITO PERIGOSO.
–VEM... EU TE AJUDO. AGORA PULA.
–NÃO!
–PULA JÚ!! – ele gritou mais alto ainda.
Segurei na mão dele e pulei de olhos fechados. Assim que os abro vejo que estava agarrada ao Justin e sentia o vento soprar em meu rosto.
–ISSO É LOUCURA! – gritei rindo e me segurando firmemente nele com medo de cair.
–MAS É DIVERTIDO! – ele gritou mais alto para que eu possa escutá-lo enquanto me envolvia com mais força.
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