No início parecia que o cd estava em branco, pois durante alguns segundos só se escutava o silêncio na sala. Depois dava para perceber algumas vozes que iam se aproximando cada vez mais até finalmente ficar audível e compreensível.
–“Onde você foi nesse feriado? Te procurei na casa dos seus avós, como a sua mãe me disse , mas eles falaram que você não tinha ido para lá.” – era a voz de Chaz.
–Chaz?! – Marie perguntou surpresa – É o Chaz falando?
–Shhh… - disse lhe cortando.
–“Eu viajei” – Justin disse respondendo o Chaz.
–“Quando? Para onde? Porque não nos avisou?” – Chaz perguntou.
–“Tenho certeza que tem algo haver com a Julieta. Ele está até menos branco” – Ryan disse rindo – “Pegou um solzinho foi?”
Dava para escutar risadas não só dos três como também de vários meninos.
–“É… tem mesmo tudo haver com ela. Nós fomos para o Brasil juntos” – disse Justin.
–“E aí… o Brasil é quente?” – um outro menino perguntou malicioso.
–“Você não faz idéia do quanto o Brasil é mesmo quente” – Justin respondeu rindo fraco.
–“Como é que é? Vocês dois já…?” – Ryan perguntou surpreso.
–“Não sei por que a surpresa.” – disse o Justin – “Alguém viu a minha camiseta? Ela não está no meu armário.” – conclui que eles estavam no vestiário.
Já dava para sentir as lágrimas surgirem nos meus olhos.
–“Pega uma minha” – Chaz disse – “Mas conta como foi cara”
–“Não sabe como é não, Chaz?” – Justin disse risonho e em seguida todos o acompanharam.
–“Até parece que eu não sei” – Chaz disse se achando.
–“Como a Julieta foi? As latinas são mesmo como dizem?” – alguém do time lhe perguntou.
–“Que nada, foi bem melhor do que se escuta por aí. A Jú foi simplesmente mais que perfeita” – disse o Justin.
–“Nossa… então conta logo como aconteceu. Onde foi que rolou?” – o mesmo menino de antes perguntou.
–“Foi em um chalé, de frente para uma praia deserta. Já estava de noite e a luz tinha acabado…”
Involuntariamente, eu corri até o painel cheio de botões e apertei stop. Minhas pernas e minhas mãos estavam trêmulas, senti meu corpo fraco, meu coração parecia que tinha sido arrancado de dentro do meu peito e as lágrimas corriam desesperadamente pelo meu rosto seguido de vários soluços.
–Amiga! – Marie disse me abraçando – Desculpa, eu não deveria ter colocado o cd. Eu deveria ter tirado ele desde o principio.
–Ele me usou e ainda me expôs desse jeito. – disse me entregando ao choro – Tudo para continuar provando que é o garanhão da escola. Não acredito que acabei me entregando a ele, não acredito que eu acreditei nele.
–Jú… a culpa não é sua. Ele que é um idiota – Marie disse me consolando.
–Eu deveria ter escutado todo mundo, não deveria ter acreditado em suas palavras. – disse afundando meu rosto em seu ombro – Ele dizia que me amava.
–Esquece isso Jú, ele não merece nenhuma lágrima sua. Pode ter certeza que ele vai acabar pagando por tudo isso. – ela disse acariciando meus cabelos. –Você está tremendo?! – Marie disse assustada - Eu vou buscar um pouco de água com açúcar para você se acalmar. Não saí daqui, já volto.
Ela saiu pela porta e eu fiquei sozinha na sala. A dor que eu sentia era intensa e inexplicável. O menino que eu amei como ninguém me apunhalou pelas costas, sem dó nem piedade. Limpei meu rosto com as minhas mãos e saí de dentro da rádio. Eu percorria desesperadamente o corredor e todos riam de mim. Abaixei minha cabeça e fui até meu armário. Por causa das minhas mãos trêmulas eu demorei muito para conseguir abrir ele e mexer nas minhas coisas.
–Finalmente te achei. Senti sua falta, amor – Justin disse me abraçando por trás.
Meu desespero era tanto que me afastei dele e fiquei apoiada na porta do meu armário, tentando me manter em pé e engolir em seco.
–O que foi, gata? – ele me perguntou assustado. – Está tudo bem? Porque todos estão nos olhando e rindo tanto?
–Seu idiota! – disse me virando de frente para ele e lhe dei um tapa na cara. Dava até para escutar o eco que perpetuava pelos quatro cantos do corredor. Todos alunos ficaram parados ao nosso redor nos olhando.
–O que deu em você? – ele disse me olhando surpreso e levando sua mão até o seu rosto – O que está acontecendo?
–Eles estão rindo da palhaça aqui. – disse gritando enquanto chorava – A palhaça que você apresentou detalhadamente a todos.
–Jú… eu não estou entendendo nada. – ele falou arregalando os olhos.
–Você disse que me amava. – falei me entregando novamente ao choro.
–E continuo te amando. – Ele disse se aproximando mais de mim.
–Fica longe de mim – disse dando um passo para trás – Não toque mais em mim, não fale mais comigo e nem sequer olhe para mim.
–Me fala logo o que está acontecendo. Eu não estou entendendo nada.
–“Você não faz idéia do quanto o Brasil é mesmo quente” – repeti devagar o que ele tinha dito na gravação.
–Como você sabe disso? – ele perguntou surpreso.
–Todos da escola já sabem o que o time de basquete falou sobre mim no vestuário… do que você disse sobre mim. Você jurou que eu não seria mais uma e que nunca me machucaria.
–E não é mais uma! Jú… não é o que você está pensando.
–Eu confiei em você. Eu ignorei to mundo por você. Briguei com meu melhor amigo por sua causa e estive do seu lado quando você mais precisou. – disse alterada.
–Não sei como isso chegou ao ouvido de todos, mas eu não disse nesse sentido. Eu não te usei Julieta, eu me apaixonei por você.
–Chega! – gritei – Pára de mentir para mim. Pára de encenar. Eu não acredito em mais nada que vem de você.
Me virei de frente para o armário e peguei o envelope com as fotos.
–Agora entendo o real motivo de você querer tanto essas fotos - disse jogando em sua cara e acabou se espalhando pelo chão – Queria provas? Aí está. – disse pisando com força em cada uma enquanto derramava lágrimas junto. – Vai lá mostrar para os seus amigos.
–Não faz isso, Jú. – ele disse segurando meus braços, tentando me conter – Eu te amo, entenda isso.
–E eu tenho nojo de você – disse cuspindo em sua cara e saí correndo pelo corredor.
–Jú… me escuta! – ele disse correndo atrás de mim e me segurou firmemente.
–Deixa ela em paz, Justin! – Marie disse me salvando dos braços dele.
–Não! Eu preciso falar com ela. – ele disse insistente.
–Você já falou muito, mais do que o necessário se quer saber – ela disse me afastando pelo corredor a fora.
Lá fora estava congelando, porém não mais que o meu coração. Ele tinha sido petrificado, parecia que não batia como antes, na verdade parecia que o meu sangue nem pulsava mais.
–Jú! Você está bem? – Marie perguntou preocupada – Você está pálida, parece fraca.
Acabei me lembrando da aula de boxer, quando ele foi na minha casa.
–Vai com calma gata! Deixa eu te ajudar um pouco. – ele ficou atrás de mim e segurou nos meus pulsos. – Presta a atenção e depois você tenta repetir, ok? – ele dizia perto do meu ouvido.
Sentir seu cheiro e sua pele tão perto da minha me deixava totalmente arrepiada.Acabei lembrando de um trecho daquela música “Hummingbird Heartbeat”
“You're so exotic, get my whole body fluttering
Constantly craving for a taste of your sticky sweet
Always on the brink of a heart attack
You keep me alive and keep me coming back
I see the sun rise in your eyes, your eyes”
–Jú? Você está bem? Parece fraca.- ele disse ficando na minha frente e me segurando com força. Seu rosto parecia preocupado.
–Não, eu estou bem! Vamos continuar. – eu disse.
Na verdade meu mundo se encontrava de ponta cabeça naquele momento. Os efeitos dele sobre mim eram infinitos.
Em seguida me sentei na neve, abraçando fortemente o meu joelho. Novamente fui deixada depois de me apaixonar, mas dessa vez foi pior. Eu dei uma nova oportunidade ao amor e acabei sendo a vítima.
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